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jan 15, 2021

Um Suspiro Enclausurado


O Covid-19 e a subsequente pandemia trouxeram-nos um dos maiores desafios dos últimos tempos. Este desafio tirou-nos a normalidade, a liberdade que tomamos por garantida, os simples prazeres da vida, aos quais não dávamos o devido reconhecimento ou importância. Esta é a minha experiência, as dificuldades e ensinamentos que a nova realidade trouxe, não só a mim, mas a muitos outros.
Ultrapassei o limite das minhas lágrimas e estive demasiado tempo só comigo mesma para mal da minha ansiedade, durante a pandemia. 
Afastei-me de algumas pessoas, outras afastaram-se de mim, aprendi a conhecer-me, tive saudades dos cafés com o sol de fim de tarde como fundo, e fiquei preocupada até com quem não conhecia. Conheci um ensino que não achava que estivesse tão próximo de mim, que me trouxe a certeza de que não é a maneira certa de ensinar e que o contacto físico faz falta e é algo inerente ao ser humano. Coloquei outra realidade em perspetiva e aprendi a ter mais empatia pelo próximo, desculpei-me por coisas pelas quais me culpei por muito tempo e comecei a respeitar mais a natureza e o ser humano. Morri de medo, pensei demasiadas vezes nos meus avós, no quão frágeis somos e comecei a achar que no meio disto tudo, talvez, tantas outras pessoas da minha idade estariam a pensar no mesmo.
Aprendemos que fazer do trabalho a nossa prioridade na vida, não é a melhor forma de viver. Tudo o que era desvalorizado pela banalidade do gesto ou pela trivialidade do conteúdo irá ensinar-nos alguma lição, ainda que tardia. 
Os nossos corações já doem de tanta saudade do tudo e do nada e tal como ensina Chico Buarque, “a saudade é o revés de um parto”.

Ana Sofia Martins