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abr 30, 2020

Sinais dos tempos


Já fui feliz e não sabia, pelo menos não tão bem como agora!

Às vezes precisamos de um abanão na vida, mas este foi um abanão coletivo.

Tenho saudades da normalidade, dos amigos, dos beijos e abraços… mas o “normal” é um termo complexo. A crise poderá ser a oportunidade para inventarmos um novo normal, um novo paradigma de relações humanas. É urgente redefinirmos a nossa hierarquia de valores. Acredito que uma autopoiese será inevitável.

Não existe nada melhor do que a fome para se dar valor ao pão e, olhando para trás, é possível reparar que andávamos a viver de uma forma muito light; querendo fazer tudo e quase sem tempo para nada, sem tempo para ninguém, sobretudo para nós próprios.

Bem, agora temos tempo… mas pouco podemos fazer!

Isto está para durar e sabemos que, no final, ninguém sairá ileso desta história; nesse intervalo de tempo, entre o agora e o “the end”, talvez possamos deixar a nossa marca, uma nova marca.


Nestas situações existe a tendência do neoclássico, no entanto existem erros que não devemos repetir. Na educação, o «bom dia», o «obrigado», o «desculpe», entre muitas outras expressões, devem regressar a um uso mais habitual. É necessária uma revolução dos valores um pouco à maneira de Emmanuel Mounier. É também necessário escutar mais (e ouvir menos!), observar mais (e ver menos!), procurar conhecer o valor das coisas (e não o seu preço!).


O melhor da vida não se pode comprar. Devemos ser íntegros, corretos, justos, bondosos; e até podemos ter heterónimos, mas nunca máscaras (Pessoa… se fosses vivo!). A única máscara que devemos usar deve ser aquela para evitarmos ser «covid`ados» a pacientes no hospital. Devemos ser pacientes, mas em casa… e foi exatamente aí, depois de ler Kafka à beira mar do japonês Haruki Murakami, a ouvir Heroes do David Bowie, com a lareira acesa e um copo de vinho na mão que, no desafio de escrever estas linhas, dou por mim a sorrir e a pensar no Hygge dinamarquês.


Os nórdicos têm muito a aprender connosco, mas nós, neste aspeto, também podemos aprender alguma coisa com eles! Assim, da mesma forma que devemos colocar o máximo de nós na mais pequena coisa que façamos, também devemos procurar obter o prazer possível das coisas mais simples. Hygge significa então aconchego, bem-estar, contentamento, sociabilidade, segurança, no sentido de nos sentirmos protegidos e tranquilos; é, no fundo, um estilo de vida, uma forma de estar, uma caminhada e não uma ideia de felicidade como algo a que se chegou, uma meta.


Não devemos perder o medo, pois o medo mantém-nos alerta, no entanto, independentemente das pandemias, estamos condenados a recomeçar (qual Sísifo à boa maneira de Adolfo Rocha!). Não devia ser preciso muito para nos contentarmos mas, no caminho da liberdade, de nenhum fruto queiramos só a metade.

O respeito pela natureza e pelo próximo serão os alicerces de um mundo melhor. E entre a némesis da natureza e a catarse do ser humano, enquanto ansiamos a cura, brindemos com um bom copo de Dão. (Nunca o Dão de dádiva teve um significado tão especial e até terapêutico!)

Juntos conseguiremos, votos de um grande HYGGE para todos.


29.abril.2020

O Professor,

Antero Gonçalves